A diferença entre poço artesiano e semiartesiano, no uso comum, é a pressão da água: no artesiano ela sobe pelo tubo e pode até jorrar sozinha; no semiartesiano ela sobe, mas para abaixo do chão, e precisa de bomba. O detalhe que quase ninguém conta é que “semiartesiano” não é termo técnico. O Serviço Geológico do Brasil (SGB) e a Funasa chamam de artesiano qualquer poço em aquífero confinado, jorre ele ou não.
Este guia explica o que faz um poço ser artesiano, os três sentidos que o mercado dá a “semiartesiano” e a comparação lado a lado de profundidade, bomba, vazão, custo, licença e risco de contaminação. As fontes técnicas foram conferidas em 24 de outubro de 2026.
A confusão não é pequena. No SE Ranking, em coleta de 23 de outubro de 2026, as variações da pergunta sobre a diferença entre os dois somam 760 buscas mensais no Brasil, e “poço semi artesiano” sozinho tem 3.200. É muita gente procurando a definição de um termo que nenhum dos órgãos técnicos consultados define.
O que faz um poço ser artesiano
Tudo depende do tipo de aquífero. O Manual de Cartografia Hidrogeológica do SGB separa dois casos:
- Aquífero livre, ou freático: a água fica sob a pressão do ar, e o nível sobe e desce com a chuva. É o lençol que um poço raso alcança.
- Aquífero confinado: a água fica presa entre camadas pouco permeáveis, como argila, e está sob pressão maior que a do ar.
Quando a perfuração fura o topo de um aquífero confinado, a água sobe rápido pelo tubo até estabilizar. Esse fenômeno é o artesianismo. Se o nível estabiliza acima do terreno, a água sai sozinha, e o poço é chamado de jorrante ou surgente. Se estabiliza abaixo do terreno, o manual do SGB chama o poço “simplesmente” de artesiano. A Funasa usa a mesma lógica no Manual de Saneamento, e a ANA, em material técnico de 2019, fala em “poços artesianos, jorrantes ou não”.

Jorrar também não quer dizer ter muita água. A cartilha Poços e Águas Subterrâneas, do SGB, avisa que um poço surgente pode ter pressão alta e vazão pequena, e que mesmo o jorrante pode precisar de bomba para retirar volumes maiores.

“Semiartesiano”: um nome popular com três sentidos
Nenhuma definição de “semiartesiano” apareceu nos materiais do SGB, da ANA e da Funasa, nem nas normas de Minas Gerais e de Santa Catarina que tratam de poço. A Deliberação Normativa CERH-MG 76/2022, por exemplo, só conhece “poço tubular” e “poço manual”. Um documento da Assembleia Legislativa de Mato Grosso, de 2013, chama o termo de popular e diz que tecnicamente os dois são poço tubular profundo. Na prática, o mercado usa a palavra em três sentidos diferentes:
| Leitura | O que “semiartesiano” quer dizer | Onde aparece |
|---|---|---|
| Confinado sem jorro | Poço em aquífero confinado em que a água sobe, mas para abaixo do terreno e precisa de bomba | Documento da Assembleia Legislativa de MT e sites educativos. Para o SGB e a Funasa, é um poço artesiano comum |
| Poço mais raso | Poço perfurado no lençol freático, mais raso que o “artesiano” | Sites comerciais e de perfuradoras, sem apoio em fonte técnica |
| Classificação pela rocha | Poço em rocha cristalina, sedimentar ou mista, reservando “artesiano” ao Aquífero Guarani | Cartilha da ABAS e da FIESP de 2005 para o estado de São Paulo |
O uso solto aparece até em documentos públicos. Uma prefeitura do Pará chama de “semi artesiano” um poço tubular de 50 metros; uma de Minas contrata como “artesiano” poços de 120 metros com motobomba. Por isso, ao pedir orçamento, a pergunta útil não é o nome do poço, e sim a profundidade prevista, o aquífero e o tipo de bomba.
Comparação lado a lado
Como o nome não define o poço, a comparação mais honesta é entre os três tipos que aparecem nas fontes técnicas. A coluna do meio é o que a maioria das perfuradoras vende como semiartesiano ou artesiano.
| Critério | Poço raso ou escavado (cacimba) | Poço tubular com bomba (o “semiartesiano” do mercado) | Artesiano jorrante |
|---|---|---|---|
| Aquífero | Livre, o lençol freático | Confinado sem jorro ou livre mais profundo, conforme a região | Confinado, com nível acima do terreno |
| Profundidade usual | Até cerca de 20 m (Funasa) ou abaixo de 30 m (SGB) | Média em torno de 100 m (SGB); 60 a 300 m em abastecimento (Funasa); em rocha cristalina, por volta de 60 m | Depende do aquífero; não há faixa própria nas fontes oficiais |
| Bomba | Balde, centrífuga, injetora ou manual | Submersa elétrica, dentro da coluna d’água | Dispensa para jorrar; pode precisar para volumes maiores |
| Vazão típica | Pequena, para uso doméstico | Rocha cristalina: média de 2 a 5 m³/h; sedimentar: até 1.000 m³/h | Jorrar não garante vazão alta |
| Diâmetro | Mínimo usual de 90 cm | 4 e 6 polegadas são os mais comuns; mínimo de 4 polegadas | O mesmo do poço tubular |
| Custo relativo | Menor | Maior; cresce com profundidade e tipo de rocha | Não há dado específico |
| Risco de contaminação | Alto: fossa, latrina, chiqueiro | Menor, se bem construído e bem cimentado | Menor, pelo confinamento |
As profundidades e vazões vêm da cartilha de 2010 do SGB, do guia de noções básicas sobre poços tubulares da CPRM, de 1998, e do Manual de Saneamento da Funasa de 2019. A base pública de poços do SGB, o SIAGAS, reunia 382.333 pontos de água cadastrados no fim de 2024, segundo o relatório anual do sistema: é ali que dá para consultar a profundidade e a vazão de poços perto do seu terreno.
Profundidade, vazão e bomba: o que a geologia decide
A profundidade não é escolha do dono do poço. Ela é ditada pela rocha. Em rocha cristalina, como granito e gnaisse, a água corre por fraturas: os poços costumam parar perto dos 60 metros, com máximo por volta de 80, e a vazão média fica entre 2 e 5 m³ por hora. Em rocha sedimentar, como arenito, os poços variam muito e podem passar de 1.000 metros, com vazões que vão de pequenas a 1.000 m³ por hora, segundo a CPRM.
Para dimensionar a necessidade, a cartilha do SGB usa o mínimo de 50 litros por pessoa por dia. Uma família de quatro pessoas precisa, nessa conta, de 200 litros diários, volume que um poço cristalino modesto atinge em poucos minutos de bombeamento. O que define a bomba é a profundidade do nível da água durante o bombeamento, o chamado nível dinâmico, somada à altura até a caixa d’água.
Custo: o que pesa mais que o nome
A ANA resume a regra geral: poços em aquífero livre são mais rasos e de menor custo; em aquífero confinado, mais profundos e de maior custo. O preço por metro muda com o tipo de rocha, o diâmetro, o revestimento e a região.
Como referência pública e datada, a Prefeitura de Santos Dumont (MG) registrou em ata de 22 de outubro de 2025 o preço de R$ 59.100 por poço tubular de cerca de 120 metros. O valor inclui teste de vazão, motobomba com painel, pedido de perfuração, outorga, ART e relatório, segundo a ata de registro de preços. É preço de compra pública de 15 poços, não de obra residencial avulsa. A conta item por item, com faixas por profundidade, está no guia sobre o valor do poço artesiano.
Licença: a regra é a mesma para os dois
A lei não distingue artesiano de semiartesiano. A água subterrânea é bem dos estados, e qualquer poço depende de outorga ou de cadastro no órgão estadual. O que muda é o volume retirado. Em Minas Gerais, o poço tubular pode ficar só no cadastro de uso insignificante até 14 m³ por dia, se estiver em área rural, tiver autorização de perfuração e for o único poço desse tipo na propriedade. Em São Paulo, a SP Águas dispensa a outorga até 15 m³ por dia, com cadastro obrigatório, mas exige outorga em toda captação no Aquífero Guarani, salvo uso rural de pessoas físicas. O caminho completo, com o órgão de cada estado, está no guia de outorga para cada tipo de poço.
Risco de contaminação: raso é mais exposto
O SGB e a ANA concordam: o aquífero livre tem maior vulnerabilidade natural, porque recebe direto o que infiltra da superfície, enquanto o confinado é mais protegido pelas camadas que o cobrem. O poço escavado é o mais exposto a fossas, latrinas e pocilgas, e a Funasa recomenda mantê-lo a pelo menos 15 metros de uma fossa seca e a 100 metros de chiqueiros e estábulos.
Poço profundo também não é garantia. A cartilha do SGB aponta a má cimentação do espaço entre o tubo e a rocha como a causa da maioria das contaminações de poços tubulares: a água suja desce por fora do revestimento e chega ao aquífero. Seja qual for o poço, só a análise mostra se a água do poço pode ser bebida.

Qual faz sentido para cada uso
- Casa em área urbana, com rede pública perto: o poço costuma servir como reforço para jardim e limpeza. O raso custa menos, mas fica perto de fossas e redes de esgoto; para beber, a análise é indispensável.
- Sítio ou chácara sem rede: o poço tubular com bomba submersa é o padrão. A profundidade sai do estudo do terreno e dos poços vizinhos, não do nome que a empresa usa.
- Condomínio, comércio ou mais de uma família: o consumo tende a passar dos limites de uso insignificante, e o poço entra na outorga; a água também passa a seguir regras de controle mais rígidas.
- Irrigação e criação de animais: o volume diário costuma exigir poço tubular de maior vazão e outorga. Pela conta dos limites estaduais, raramente cabe no uso insignificante.
Em todos os casos, peça à empresa por escrito a profundidade prevista, o tipo de aquífero esperado, o diâmetro, o revestimento e o teste de vazão. Esses dados dizem mais sobre o poço do que a palavra “artesiano” ou “semiartesiano” no orçamento.
Perguntas frequentes
Todo poço artesiano jorra?
Não. Pelo Manual de Cartografia Hidrogeológica do SGB, poço artesiano é o que capta aquífero confinado, em que a água sobe pelo tubo por causa da pressão. Só quando o nível passa da superfície do terreno o poço é chamado de jorrante ou surgente. A maioria dos poços artesianos precisa de bomba.
Poço semiartesiano precisa de bomba?
Sim. No uso comum, semiartesiano é justamente o poço em que a água não chega sozinha à superfície. Em poço tubular, a bomba usada é a submersa elétrica, instalada dentro da coluna d’água, com versões de 220 V monofásicas e 380 V trifásicas, segundo a cartilha do SGB.
Qual a profundidade de um poço semiartesiano?
Não existe faixa oficial, porque o termo não tem definição técnica. A profundidade depende do aquífero: em rocha cristalina, os poços tubulares costumam ficar por volta de 60 metros; a média dos poços tubulares profundos gira em torno de 100 metros, segundo o SGB. Faixas como 20 a 50 metros circulam em sites comerciais, sem apoio em fonte técnica.
Poço semiartesiano é mais barato que o artesiano?
Em geral, sim, quando o semiartesiano é mais raso: a ANA registra que poços em aquífero livre são mais rasos e de menor custo, e os de aquífero confinado, mais profundos e caros. Mas o preço depende da profundidade real, da rocha e do diâmetro, não do nome que aparece no orçamento.
Qual dos dois tem água melhor?
O aquífero confinado é mais protegido da contaminação vinda da superfície, e o livre, mais vulnerável, segundo o SGB e a ANA. Mesmo assim, poço profundo mal cimentado pode se contaminar. A qualidade de um poço específico só aparece no laudo de laboratório.
